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’’Visita de Lula foi mais uma de suas grandes mentiras’’. Entrevista com D. Luiz Flávio Cappio

sexta-feira 23 de outubro de 2009


Crítico da transposição das águas do rio São Francisco, o bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, 63, disse que o projeto é um "tsunami" e que as obras de revitalização do rio promovidas pelo governo federal são "marolinhas" - termo que o presidente Lula usou para se referir aos reflexos da crise econômica global no Brasil. Cappio fez duas greves de fome contra a transposição, em 2005 e 2007. Nos últimos dias, quando uma comitiva presidencial visitou a região - passando também por Barra -, o bispo não estava na cidade. Mas organizou à distância um protesto no dia da visita de Lula.

A entrevista é de Matheus Magenta e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 17-10-2009.

Eis a entrevista.

O sr. acha que a visita do presidente a Barra foi provocação, para mostrar que as obras estão em andamento apesar das críticas?

Quero usar as próprias palavras do presidente, quando ele falou que a crise econômica era uma marolinha para o Brasil. O projeto de transposição segue como um tsunami violento. Está lá o Exército desmatando tudo, passando por cima de vilas e aldeias, de roças e de gado, para garantir o trabalho. E as obras de revitalização, que são essenciais para a vida do rio São Francisco, são marolinhas, coisas insignificantes.

A Presidência convidou o sr. para ir ao evento?

Se me ligaram, eu não sei porque não estava aqui. E, mesmo que eu fosse convidado, eu não iria porque não participaria de uma mentira.

Por que "mentira"?

O que o presidente veio fazer em Barra foi apenas um marketing de mídia para mostrar para o Brasil e para o mundo algo que não existe, uma farsa, uma mentira. O projeto de revitalização não acontece. Foi mais uma de suas grandes mentiras sobre esse projeto. Foi apenas um show.

Apesar de não estar no município, o sr. organizou um protesto. Por que os sinos da igreja tocaram o dobre fúnebre?

Foi a única maneira de homenagear aquele que está matando o rio em nome da ganância.

O presidente Lula?

Sim. Durante a minha vida toda fiz tudo para colocar Lula na Presidência. Mas, infelizmente, uma vez que ele se tornou presidente, ele passou a governar o Brasil pensando nas grandes elites, como esse projeto de transposição que garante apenas a segurança hídrica de grandes projetos de irrigação. Se o projeto realmente levasse água a quem precisa, eu seria o primeiro a apoiá-lo.

O andamento do projeto representa uma vitória do governo?

É vitória não da democracia, mas de uma postura ditatorial do presidente. A sociedade civil brasileira quis discutir o projeto, mas ele jamais aceitou. Ele impõe a transposição à revelia da sociedade.

O projeto de revitalização é suficiente para recuperar o rio?

É muito pouco, não atinge o essencial. Esses projetos de saneamento básico são importantes, mas não significam uma revitalização do rio. O que deveria ser feito é garantir a revitalização de todas as nascentes dos afluentes do rio, das lagoas, das regiões que geram vida ao rio. A maioria delas está morta. E não apenas em 300 km, mas em toda sua extensão. Quem fala sobre esses números não conhece realmente o rio.

Dilma Rousseff afirmou que os críticos não conhecem o rio.

Que conhecimento que a Dilma tem do rio São Francisco? O que ela sabe é de ouvir falar. Chega de mentir para o povo. Nós tivemos aqui na Barra um show. Foi um show de política em véspera de eleição. Tenho pena de pessoas que se deixam enganar com aquilo.

fonte: IHU

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  • O bispo de Barra é um grande crítico da transposição do Rio São Francisco. Baseando-se nas idéias do Prof. João Abner, da UFRN, ele diz que “o projeto de transposição garante apenas a segurança hídrica de grandes projetos de irrigação”. Acontece que o Prof. João Abner há muito já se retirou do debate sobre a transposição. Corajosamente, ele enfrentava todos os setores de seu estado que lutam com afinco para que a transposição aconteça o mais rapidamente possível. Os jornais locais gostavam de fazer debates entre ele e o vice-governador do estado e convidavam o público para opinar a respeito do tema. Invariavelmente, os convidados eram unânimes em defender a transposição. Cansado de enfrentar políticos, estudantes, frentes em defesa da transposição e até seus colegas de universidade, o Prof. João Abner retirou-se do debate. No entanto, os argumentos que ele apresentava continuam sendo os mesmos defendidos pelo bispo de Barra. Na última entrevista, ele diz que Lula “impõe a transposição à revelia da sociedade”. Trata-se de uma afirmação totalmente gratuita. Não me recordo de um projeto que tenha passado por tantos debates, tenha sido defendido ardorosamente pelos habitantes das bacias receptoras e, também, criticando com afinco por habitantes da bacia doadora. Na verdade, projetos como esse jamais terão apoio unânime, mas, como dizia Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”. Há, no entanto, uma afirmação do bispo que chama a atenção. Diz ele que “se o projeto realmente levasse água a quem precisa, eu seria o primeiro a apoiá-lo”. Durante sua greve de fome, as críticas ao projeto eram contundentes. Teria sido concebido apenas para fornecer água a carcinicultores, apenas 5% da população seria beneficiada, enquanto o restante pagaria pelo fornecimento de água ao agronegócio, a ANA havia apresentado um projeto muito mais barato alternativo à transposição, o Rio São Francisco não tinha condições de fornecer água, pois um doente na CTI não pode doar sangue, etc. Agora, no entanto, ainda que no condicional, ele já admite a possibilidade de que o projeto possa levar água a quem precisa. Com relação ao chamado projeto da ANA, há algumas considerações a serem feitas. Primeiramente, de acordo com palavras de seu próprio presidente, não se trata de um projeto alternativo à transposição, mas de um portfólio de medidas destinadas a propor sugestões para o abastecimento de água a cidades e distritos com mais de 5.000 habitantes. Em segundo lugar, é profundamente lamentável que, em um país que detém quase 20% de toda a água doce do planeta, ainda haja cidades (e cidades com população expressiva) que não disponham sequer de água tratada para fornecerem à sua população. Enquanto o bispo desdenha as estações de tratamento de esgoto que estão sendo feitas para melhorar a qualidade da água do Rio São Francisco, dizendo que “esses projetos de saneamento básico são importantes, mas não significam uma revitalização do rio”, populações nordestinas não dispõem, sequer, de água tratada para beber. Percebe-se, na entrevista, que o bispo mudou o tom de seu discurso. Agora ele se limita a falar, genericamente, que o Exército está “desmatando tudo, passando por cima de vilas e aldeias, de roças e de gado, para garantir o trabalho”, demonstrando estar aborrecido com a participação dos militares na execução dos trabalhos, o que não teria acontecido se a obra não tivesse sofrido grandes atrasos até que a Justiça, julgando as inúmeras ações, liberasse sua execução por empreiteiras. Fazemos um apelo a D. Luiz Flávio Cappio para que faça uma visita ao sertão da Paraíba ou ao agreste de Pernambuco durante os meses de sol inclemente, com açudes secos, gado morrendo, roças devastadas e população se retirando. Tenho a certeza de que ele vai acabar por ouvir os apelos dos sertanejos que anseiam por um pouquinho de água do São Francisco e acabará por cessar suas críticas ao projeto de transposição. Ele estará, assim, em muito boa companhia, pois Paulo de Tarso, que perseguia os cristãos, embora no íntimo desejasse ser como um deles, acabou por se converter, ouvindo as palavras do Cristo: “É duro recalcitrar contra o aguilhão.”.

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